domingo, 21 de abril de 2013

QUEM SOU


QUEM SOU

            Nem sei se posso dizer quem sou. Sinto-me tão mutável quanto o tempo: um dia com sol, outro com chuva. Existem ainda aqueles dias em que me afogo com as lágrimas dos meus semelhantes ou me irradio com o sorriso deles.
            A subjetividade mora em mim. Também, não nasci da razão. Na pior das hipóteses, nasci de um momento lúbrico, de devaneios, para o qual ela não foi convidada.
            O papel é o meu confidente. Nele, me dispo como um RX. Se não acredita em mim, pelo menos me escuta. Ele tem o ouvido do mundo.
            Sou um filho do povo. Nasci num Jaracatiá nada doce. A única cena memorável de lá é a Chica Cebola, a qual eu fitava a montanha para vê-la, sempre em vão. Do mais, o labor, a exploração. Sendo o terceiro dos sete irmãos, aproximadamente aos sete anos, eu já ajudava meu pai nas colheitas. Porém, as lavouras só frutificavam no bolso do patrão.
            Sob os olhos de São José, a vida sorriu para mim. No futebol de domingo, vibrávamos à beira do campo com a canhota do Totonho, a defesa do Nilton; os banhos de cachoeira; as jabuticabas com gosto de aventura; a brincadeira de faroeste, inspirado em Chaparral, com as espingardas artesanais do Bernardo (um dia desses, o visitei); o voo no cipó da mata... Respirávamos a liberdade.
            Todavia, a escola foi conturbada para mim. Eu a abandonei aos 14 anos para trabalhar em pedreira. Dela, guardo as marcas em meu corpo.
            Um dia, o horizonte mostrou-me uma nova direção: comecei a trabalhar em transporte coletivo. Foi então que conheci a pérola que luziu meu caminho. Por ela, voltei a estudar. A cada informação que absorvo, meu mundo dimensiona-se. Meus olhos brilham com a energia da vida. Estou casado e tenho um filho. Contudo, continuo a voar pelas nuvens à procura do infinito.

Paulo Reis
Nova Friburgo - RJ/BR, 24 de fevereiro de 2006.

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